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Flora e a Vegetação das Portas de Ródão

    Excerto de: Proposta de Classificação das Portas de Ródão

 
Geologia (unidades litostratigráficas e tectónica)

Na região a unidade litostratigráfica mais antiga é o Grupo das Beiras (Pré-Câmbrico a Câmbrico inferior), dominado por filitos e metagrauvaques.

Assentando em discordância angular também existem unidades litostratigráficas que representam o Ordovícico e que se apresentam em sinclinal alongado NW-SE: a Formação do Quartzito Armoricano e o Grupo de Cácemes. Este soco metamórfico foi intruído por diversas rochas magmáticas, de que se destacam os extensos granitóides de Nisa e Castelo Branco.

O sinclinal, bem definido na zona de Ródão, apresenta dois flancos que se juntam nas proximidades da Foz do Cobrão (onde a ribeira do Vale do Cobrão, que corre no fundo do sinclinal, se reúne ao Ocresa) fechando assim o sinclinal. (Ribeiro et al., 1967).
 

Fig. 4 – Extracto da Carta Geológica de Portugal, Folha nº 28 B Nisa, relativo à área em estudo. Escala 1: 50000

A documentar o Terciário existe um grupo de formações arcósicas (Grupo da Beira Baixa; Paleogénico a Miocénico Superior) a testemunhar uma vasta drenagem fluvial na Bacia do Baixo Tejo e outro grupo (Grupo da Murracha (Tortoniano superior a Placenciano) que materializa a resposta sedimentar às fases de soerguimento da Cordilheira Central Portuguesa, sendo essencialmente formado por depósitos de leque aluvial localizados no sopé de escarpas tectónicas (Cunha, 1992, 1996). A etapa de enchimento terciário terminou com a deposição de um extenso manto areno-conglomerático, definido regionalmente por Formação de Falagueira (Cunha et al., 1993; Cunha, 1996) e atribuída ao Placenciano (cerca de 3,6 a 2,6 milhões de anos).

O registo sedimentar mais recente que a Formação de Falagueira é escasso devido à tendência para a incisão que dominou na etapa fluvial seguinte que, provavelmente, abrange o Gelasiano (Pliocénico final) e o Quaternário. Em depressões tectónicas tais como a de Ródão, formaram-se escadarias de terraços e diversificados depósitos sedimentares: depósitos de leques torrenciais, terraços, coluviões e aluviões.

Depósitos de vertente são abundantes nas escostas quartzíticas, testemunhando vários episódios deposicionais. Estes depósitos, com clastos angulosos de quartzito envoltos ou não em matriz argilosa, podem observar-se nos flancos da serra do Perdigão e da Serra de São Miguel. A sua génese pode ter sido favorecida por períodos de frio pois as cristas que dão origem ao material seu constituinte estão abundantemente fracturadas, o que facilita fenómenos de gelifracção (Carvalho, 2003).

A orogenia varisca originou, para além de importantes dobramentos, vários sistemas de falhas a afectar as rochas pré-existentes. Na região identificam-se lineamentos tectónicos, com orientações dominante NE-SW, NNW–SSE, NW-SE e N-S, geralmente indicados por orientações rectilíneas dos vales (Cunha et al., 2005). Com destaque na tectónica de Ródão, a estrutura tectónica do Ponsul corresponde a uma importante falha tardi-hercínica NE-SW; foi reactivada como falha inversa durante o Tortoniano final a Zancleano, conjugando-se com falhas de desligamento NW-SE (Ribeiro, 1943b; Dias e Cabral, 1989; Cunha, 1996; Sequeira et al., 1999). Dias and Cabral (1989) consideraram existir evidências de reactivação Plio-Quaternária, predominantemente como falha inversa, com uma estimada taxa de deslocamento vertical de 0,02 to 0,1 mm/ano. Contudo, em Ródão, apesar de alguma sismicidade, a evidência da sua reactivação no Quaternário baseia-se principalmente na diferença altimétrica entre os testemunhos do terraço T3, em ambas as margens do Tejo, a jusante das Portas de Ródão (124 m em Vilas Ruivas e 121 m no Arneiro. P. Proença Cunha e A. Martins documentaram o rejogo recente de um desligamento (N42°E, 45°NW) que se alinha pelas Portas de Ródão e, mais recentemente (2005) o de uma falha inversa (N320°, 50°W) na zona urbana de Vila Velha de Ródão.


Geomorfologia

A excelência desta área para a investigação geológica e, sobretudo, geomorfológica não passou despercebida a diferentes investigadores, de que se destaca o geógrafo Orlando Ribeiro (Univ. Lisboa) e mais recentemente Pedro Cunha (Universidade de Coimbra) e António Martins (Universidade de Évora) que sobre o tema publicaram vários trabalhos.

A região situa-se na transição da Bacia Terciária do Baixo Tejo para os relevos do bordo SW da Cordilheira Central Portuguesa, transição que se processa por uma escadaria de blocos tectónicos com orientação geral NE-SW a ENE-WSW. Os degraus tectónicos, correspondem a escarpas de falha expostas a sudeste ou a leste e estabelecem uma subida desde a Meseta Meridional, representada pela peneplanície do Alto Alentejo ou Superfície de Nisa, para a Superfície de Castelo Branco e depois para as serras de Muradal e Gardunha, já no bordo sudeste da Cordilheira Central (Ribeiro, 1949).

O relevo regional está dominado por cristas de resistência, alongadas segundo NW-SE e altitude ultrapassando 500 m. Estas cristas quartzíticas são atravessadas em gargantas, pelos rios Tejo e Ocreza. O relevo quartzítico que mais se destaca na área em análise, funcionando como elemento determinante da paisagem local, é a serra das Talhadas. Estende-se pelos concelhos de Vila Velha de Ródão, Nisa e Proença-a-Nova, assumindo diferentes designações (serra do Perdigão, serra da Vila, serra do Gavião, no concelho de Ródão, serra de São Miguel no concelho de Nisa). É nesta serra que se encontram os pontos mais elevados: o Penedo Gordo, no Gavião de Ródão, com 570 metros e São Miguel, a norte da vila de Nisa, com 460 metros. Ambos se localizam nas proximidades da área em estudo, estando situados respectivamente a norte e a sul daquela.


Foto 2 - Vista da área norte

Esta imponente crista quartzítica, com um comando de 150 a 250 metros acima das plataformas de xistos, destaca-se como marca indelével na paisagem e estende-se para a margem sul do Tejo onde se localiza o Monte de São Miguel de Nisa (Ribeiro et al., 1965). Mede mais de 30 km de comprimento e 2,5 km de largura máxima, é composta por duas cumeadas paralelas, separadas por um vale escavado nos xistos brandos, em correspondência perfeita de ambos os lados do rio (Teixeira, 1981).

A crista quartzítica e o vale do Tejo, que a atravessa, apresentam os declives mais acentuados reconhecidos, nos concelhos de Nisa e Vila Velha de Ródão, ultrapassando frequentemente os 16% (Carvalho, 2003). Nas proximidades desta crista encontram-se declives superiores a 25%, chegando nalguns locais, e em especial nas Portas de Ródão, a ultrapassar os 50%. Esta classe de declives encontra-se associada aos elementos morfológicos mais marcantes da região, as cristas quartzíticas e as zonas de maior encaixe da rede de drenagem, particularmente observáveis na ribeira das Vilas Ruivas, na ribeira do Açafal e ainda em alguns sectores das escarpas de falha do Ponsul e do Arneiro. Os declives mais suaves estão localizados nas bacias de abatimento de Ródão e Arneiro.



Foto 3 - Vista parcial da área sul, com destaque para o bloco abatido do Arneiro

Abaixo das cristas desenvolve-se a Superfície Fundamental, importante aplanamento posicionado aos 300 a 320 m de altitude em áreas de metagrauvaques/filitos ou granitos. A Superfície Fundamental é a extensão em Portugal da Meseta Estremenha, a qual foi coberta por arcoses durante o Paleogénico. Depois de um longo período de sedimentação durante o Terciário, a Superfície Fundamental foi sendo progressivamente exumada, e depois dissecada, durante a etapa de incisão fluvial.

O enchimento terciário terminou com a deposição de um extenso manto areno-conglomerático, definido regionalmente por Formação de Falagueira (com cerca de 3,6 a 2,6 milhões de anos). Estes conglomerados constituem relevos residuais com forma de mesa, a altitudes superiores a 290 m. No bloco abatido da falha do Ponsul-Arneiro esta formação assenta por discordância sobre nas arcoses do Grupo da Beira Baixa (Cunha et al., 2000).

A formação da Falagueira resultou de um sistema fluvial, o ancestral Tejo, que corria muito acima do leito actual deste rio e atravessava às cristas de Vila Velha de Ródão, tendo sido responsável pela melhoria do arrasamento destas, num sector imediatamente a sul das Portas de Ródão. Esta antecedência da drenagem explica o traçado epigénico do Tejo nas Portas de Ródão (Ribeiro, 1943), bem como o atravessamento da serra de Perdigão pelo rio Ocreza, mais a noroeste.

De acordo com Ribeiro (1943a) e Dias & Cabral (1989), a altitude dos segmentos das cristas de quartzito e a altitude a que se posicionam os testemunhos da Formação de Falagueira (300 to 362 m) indicam que o ancestral Tejo foi superimposto nas cristas quartzíticas e no bloco soerguido da falha do Ponsul.

Um pouco por toda a região ocorrem vales encaixados resultantes da erosão vertical provocada pela instalação dos cursos de água. Por outro lado, o progressivo encaixe da rede hidrográfica gerou outras formas de relevo, resultantes dos níveis de erosão e dos terraços de acumulação.

Num período de soerguimento tectónico regional, cuja duração poderá abranger aproximadamente os últimos 2,6 milhões de anos, foram escavados profundos vales; localmente, em alvéolos tectónicos como o de Vila Velha de Ródão e Arneiro, puderam elaborar-se aplanamentos escalonados e diversificados depósitos sedimentares (de sopé, terraços, coluviões e aluviões).

A partir da superfície culminante da bacia, distinguem-se junto a Vila Velha de Ródão, na confluência do rio Tejo com a ribeira do Açafal, do mais antigo para o mais recente, os seguintes embutimentos fluviais do Tejo (sucessivos episódios morfodinâmicos) (Cunha & Martins, 2000; Cunha et al., 2005):

1) T1 - Terraço de Monte do Pinhal (topo aos 183 m de altitude, no local tipo) e N1 - Nível de Fratel;
2) T2 - Terraço de Monte da Charneca (topo aos 150 m) e N2 - Nível de Lameira;
3) T3 - Terraço do Monte de Famaco (topo aos 116 m)/ Vilas Ruivas (aos 119 m);
4) T4 - Terraço da Capela da Senhora da Alagada (topo aos 93 m);
5) T5 - Terraço da Foz do Enxarrique (topo aos 89 m).
6) Vale com aluviões holocénicas (leito sedimentar aos 70 m).

O primeiro embutimento (T1/N1) da rede hidrográfica gerou duas formas de relevo distintas: um nível de erosão extenso (N1) e um terraço de acumulação T1. Na margem direita do Tejo, o terraço mais alto (T1) ultrapassa 200 m de altitude. Os clastos são sub-arredondados a arredondados, de quartzito e quartzo leitoso.

Ligado a um segundo embutimento (T2/N2) encontra-se, na confluência da Ribeira do Açafal com o Tejo, um terraço de acumulação (T2), designado de Monte da Charneca. A base do terraço encontra-se aos 130 m de altitude, podendo o topo atingir 150 m. Relativamente ao terraço do Monte do Pinhal, o segundo embutimento correspondeu a 53 m de encaixe, seguido de 20 m de agradação. Os depósitos do terraço T2 são conglomeráticos, com matriz vermelha areno-siltosa. A composição dos clastos inclui quartzito e quartzo leitoso. Este terraço passa lateralmente a um nível erosivo (N2) com pouca expressão em Vila Velha de Ródão.

Um terceiro embutimento (T3/N3) corresponde a um encaixe de 40 m relativamente à superfície de enchimento do terraço anterior. Está representado pelo terraço do Monte do Famaco (T3), bem desenvolvido na área da actual confluência da Ribeira do Açafal com o Rio Tejo. Fazem parte do mesmo nível de terraço o patamar da Urbanização da Quinta da Alagada e o patamar, a 122 m, que contém a estação arqueológica de Vilas Ruivas (Raposo, 1995), imediatamente a jusante das Portas de Ródão. O depósito deste terraço é conglomerático, maioritariamente de quartzito e quartzo leitoso, apresentando 6 m de espessura máxima. Na área de Monte de Famaco, a base encontra-se a 110 m e o topo a 116 m. Lateralmente passa a um nível erosivo (N3), observável ao longo de alguns cursos de água a oriente das cristas quartzíticas, como as Ribeiras de Alfrívida, Lucriz, Ribeirão e Açafal.

Na margem direita do Tejo, junto a foz da Ribeira do Açafal, está documentado um quarto embutimento (T4/N4) próximo da Capela da Senhora da Alagada. Trata-se de um terraço de acumulação (arenitos finos e siltitos) com topo aos 90 m.

Um Terraço T5 tem topo aos 89 m de altitude. Com base conglomerática, é constituído essencialmente por arenitos finos, apresentando níveis com concreções carbonatadas. Escavado no âmbito de uma estação arqueológica (Foz do Enxarrique) forneceu abundantes artefactos líticos associados a restos ósseos de fauna consumida pelo homem mustierense, tais como cavalo, veado, auroque, elefante, coelho, aves e peixes, com cerca de 34 mil anos. O sítio foi classificado como imóvel de interesse público.

A mais recente incisão do Tejo (quinto embutimento ou enchimento aluvial moderno) termina com a escavação, no soco do estreito vale abaixo do mais baixo terraço da Capela. Junto à foz da Ribeira do Açafal, o escavamento parece ter sido de 23 m relativamente à superfície do terraço da Foz do Enxarrique. Estima-se que a base do vale se situe aos 66 m de altitude, preenchida com 4 m de espessura de aluviões (areões cascalhentos ricos de feldspatos).

Tal como foi salientado por Luís Raposo (Raposo, 1987b), o processo de encaixe do Tejo, nesta área fez-se inicialmente sobre as brandas arcoses do Terciário, produzindo os extensos terraços altos; o terraço médio e baixo assenta já sobre o mais resistente substrato de xistos/metagrauvaques e reflectem condições favoráveis a uma mais estreita definição do curso do rio e respectiva rede lateral. Encaixado profundamente nos xistos, o Tejo atravessa a dupla crista quartzítica por uma impressionante garganta epigénica, as Portas de Ródão. Acompanhando o encaixe do rio os afluentes principais deste rio correm em vales profundos e escarpados, plenos de meandros, como é usual na topografia do xisto.

A barreira ao escoamento fluvial constituída pela crista quartzítica, a existência de brando substrato sedimentar ou de rochas metamórficas e o controlo tectónico local, levaram ao grande desenvolvimento de terraços na depressão de Vila Velha de Ródão, relativamente aos troços do Tejo situados imediatamente a montante e a jusante, onde os terraços são pouco desenvolvidos ou inexistentes. Através destes é-nos possível acompanhar a evolução dos sucessivos troços do rio Tejo, pelos diferentes registos morfossedimentares existentes.

Na área em análise merecem destaque as seguintes formas de relevo associadas à tectónica:

- a escarpa de falha do Ponsul-Arneiro, que se apresenta como um degrau rectilíneo, com orientação geral ENE-WSW e uma altura máxima de 90 metros;
- o graben de Vilas Ruivas, um pequeno compartimento abatido cerca de 50 m, localizado imediatamente a sudoeste das cristas quartzíticas.

Também se documenta um controlo tectónico no traçado e evolução da rede hidrográfica (Cunha et al., 2005).



Paleontologia

Os vestígios de fósseis encontram-se quer nas formações quartzíticas, quer nos xistos argilosos ordovícicos. Os quartzitos contêm Skolithos, Cruziana e Arthrophycus. Os xistos, no interior do sinclinal, na Barroca da Senhora, contêm uma fauna, por vezes abundante, mas pouco variada. Possuem Didymograptus murchisoni, diversas trilobites e braquiópodes, tais como Neseuretus tristani, Eodalmanitina sp. Orthis sp., etc (Ribeiro et al., 1965). Estes fósseis podem ser encontrados igualmente na margem sul, na Quinta da Corga.

Destes xistos provêm também Colporyphe aragoi, Ectillaenus giganteus, Orthis vespertilio, Orthoceras sp e diversos braquiópodes não classificados. A fauna descrita permite a classificação das camadas fossilíferas como sendo do Oretaniano-Drobotiviano.
        

Fotos 4 e 5 – Exemplos de Fósseis recolhidos na área e que fazem parte do espólio da Litoteca do INETI.

O Roteiro do Património Paleontológico e Mineiro das Portas de Ródão, incluído no anexo 1 e preparado para esta Proposta de Classificação por Carlos Neto de Carvalho, geólogo do Gabinete de Geologia e Paleontologia do Centro Cultural Raiano - Idanha-a-Nova, apresenta um inventário dos sítios com fósseis e uma proposta de exploração científica e didáctica dos valores existentes.

Nas arcoses do Terciário é comum a ocorrência de icnofósseis e raros troncos silicificados.


 

 
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