Arqueologia
Ambiente
Actividades
Ambiente » Portas de Ródão » Vegetação Natural
 

Flora e a Vegetação das Portas de Ródão

    Excerto de: Proposta de Classificação das Portas de Ródão

O coberto vegetal das escarpas quartzíticas e zonas envolventes, que fazem parte da área estudada, consiste num singular complexo de comunidades bastante diversificadas cuja originalidade deriva, essencialmente, da diversidade topográfica, determinada pela tectónica que pôs em contacto depósitos sedimentares de idades diferenciadas e imprimiu uma geomorfologia, num espaço relativamente restrito, de assinaláveis desníveis altimétricos e exposições diferenciadas aos vários quadrantes. Esta configuração determina, em termos climáticos, a existência numa área relativamente reduzida, de locais abrigados e umbrosos, alternando com situações de elevada termicidade e secura. A Flora e Vegetação locais reflectem bem esta diferenciação.


Descrição da Vegetação

A vegetação climatófila, isto é, aquela que é determinada, essencialmente, pelos factores climáticos (temperatura, chuvas, nevoeiros, etc.) resume-se a duas séries de Vegetação, sendo a mais abrangente e melhor representada, na área em estudo, a Smilaco aspera-Querceto suberis sigmetum, que tem por etapa climácica um sobreiral com zimbros.

Existe uma segunda série de vegetação, Pyro bourgaeanae – Quercetum rotundifoliae – var. com Juniperus lagunae, escassamente representada na zona, ocupando áreas marginais, que tem por vegetação climácica um bosque de azinheira e por orlas carrascais, alguns dos quais em bom estado e de grandes dimensões. Encontram-se sobre xistos antigos, argilosos, desfeitos, na base das cristas quartzíticas, em taludes expostos a elevada termicidade e sobre as zonas mais secas do “Conhal”. Representam situações mais secas e térmicas que a série anterior, mas susceptíveis de garantir a existência de azinheiras de porte normal.

Por último encontramos uma área considerável de zimbrais com azinheiras de pequeno porte, sobre solos rochosos de quartzitos, muito fracturados, com escassa capacidade de retenção para a água, que se escoa facilmente para as profundezas. Tem assim que suportar uma mais prolongada seca estival. Nestas comunidades que incluem espécies termófilas como o zambujeiro, espargo branco, e o espinheiro negro, por exemplo, os zimbros e as azinheiras não possuem porte arbóreo, constituindo matagais mais ou menos densos, inseridos nos fundos das rochas e sobre superfícies terrosas incipientes representando, neste locais, a vegetação climácica. Existem ainda comunidades extremes de zimbros, em situações mais inóspitas que as referidas, nas quais as azinheiras, ou não estão presentes, ou não ultrapassam o porte de caméfitos.

Em termos da área ocupada, a seguir à série do sobreiro, estas comunidades edafo-xerófitas são as melhor representadas na área em estudo, o que se compreende, dada a enorme extensão de afloramentos quartzíticos.

Esta realidade já era testemunhada em 1758, por ocasião das Memórias Paroquiais realizadas durante o reinado de D. José I., em que o cura da freguesia de Fratel, Francisco João Rombo, refere:
“... em algumas partes dadita Serra se criam com abundancia (…) arvores de zimbro pellos pinascos he amais da Serra inculturavel, nas baixas desta onde há algumas ortas, eoliveyras dos povos cercunvezinhos (Fernandes, 2005, Ob. cit. p.29).

A presença do zimbro é particularmente relevante para a classificação da zona pois trata-se de uma espécie reliquial que terá tido a sua grande expansão no final da Era terciária, adaptada a um clima já com características mediterrânicas, mas muito mais seco e frio. Durante as glaciações os zimbros ter-se-ão expandido nas estepes geladas e, já sobre a influência de climas temperados, terão sido progressivamente relegados para estas zonas marginais quer pela expansão das angiospérmicas (carvalhos) quer, provavelmente, pela acção do homem.

Uma boa parte das espécies de folha lustrosa/lauroide que integram as actuais comunidades (Rhamnetalia alaterni) são também sobreviventes da Era terciária mas adaptadas a um clima sub-tropical. Terão sobrevivido em refúgios durante as glaciações e acabaram por se adaptar bem ao clima mediterrânico com as características actuais. Como exemplo citam-se as seguintes espécies: Myrtus communis, Quercus faginea, ssp. broteroi, Arbutus unedo, Viburnum tinus, Pistacea lentiscus, Quercus coccifera, entre outras, (Pais e Teixeira Pais 1976), as quais se encontram profusamente representadas na área em estudo.

Quanto à vegetação ripícola, há poucos trechos com árvores adultas nas margens do Tejo, o que se deve ao facto das orlas serem rochosas e frequentemente abruptas. Próximo de um local denominado Fonte das Virtudes, onde existem baixios, encontra-se um amial denso de Alnus glutinosa, representativo de meios com humidade permanente e de contacto com águas em movimento, não pantanoso.

Estes tipos de comunidades incluem-se na aliança fitossociológica: Osmundo alnion glutinosae. Encontra-se, contudo, muito perturbado por influência humana, não estando representada a flora característica do sub-bosque ripícola, quando este se encontra em bom estado.

O sub-bosque encontra-se dominado por espécies nitrófilas e sub-nitrófilas da classe fitossociológica Galio-Urticetea, provavelmente, por acumulação de detritos aluviais carreados pelo Tejo, cujas águas se encontram poluídas.

A vegetação mais representativa encontrada na área em estudo e a sua dinâmica evolutiva está tipificada nos quadros seguintes: 

Importância da área para a conservação

Na área em estudo estão representados 10 habitats da Rede Natura. (Dec.- Lei nº 140/99 de 24 de Abril)

Código do Habitat Habitats de interesse comunitário
3170 (*) Charcos temporários mediterrânicos
4030 Charnecas secas europeias
5210 Matagais arborescentes de Juniperus spp.
5330 Matos termomediterrânicos pré-desérticos (Medronhais, Carrascais, Giestais)
6420 Pradarias húmidas mediterrânicas de ervas altas da Molinio -Holoschoenion
8220 Vertentes rochosas siliciosas com vegetação casmófita
8230 Rochas siliciosas com vegetação pioneira da Sedo-Sclerantion ou da Sedo albi-Veronicium dillenii.
91E0 (*) Florestas aluviais de Alnus glutinosa
9330 Florestas de Quercus suber
9340 Florestas de Quercus ilex e Quercus rotundifolia
* Habitats prioritários

Os bosques e pré bosques das séries climatófilas estão muito bem representados, o que lhes confere uma grande importância pois, actualmente, as etapas climácicas são escassas devido à enorme pressão antropogénica que se verifica na maior parte do país, inclusivamente nas próprias áreas protegidas.

Os zimbrais estão muito bem representados no espaço em estudo, constituindo comunidades reliquiais abundantes, em muito bom estado, na maior parte das situações edafo-xerófitas, para o sobreiro e azinheira.

Dada a frequência de afloramentos rochosos estão muito bem representadas as comunidades rupícolas:
- Das fendas sombrias.
- Das fendas largas e expostas.
- Das superfícies terrosas incipientes.
Existem, em zonas baixas, charcos temporários com comunidades anfíbias, as quais constituem habitats prioritários da Rede Natura.

Em face do exposto, conclui-se que, do ponto de vista da flora e vegetação, a área proposta para classificação como monumento natural se justifica plenamente, quer pela significativa biodiversidade que evidencia quer mesmo pela sua manifesta originalidade. Deve salientar-se ainda a existência de magníficos espaços cénicos em parte proporcionados pela geomorfologia mas também pelo bom estado em que se encontra o coberto vegetal.

 

 
« Setembro 2017 »
D S T Q Q S S
          1 2
3 4 5 6 7 8 9
10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23
24 25 26 27 28 29 30
             
SIGA AS NOSSAS PEGADAS
 PESQUISA