Arqueologia
Ambiente
Actividades
Notícias
serradastalhadasemoradal Na Serra das Talhadas e do Moradal

Fortes, baterias e trincheiras que um dia defenderam a nação

Abandonados e degradados por entre tojos, estevas, giestas e matos rasteiros, no mundo esquecido e bordejado pelas serras das Talhadas e do Moradal, a eles se deve em boa parte a História de Portugal tal como se passou a partir de meados do século XVIII. Não porque tenham sido palco de confrontos militares sangrentos, de grandes gestas patrióticas ou tenham sido reveladores de  grandes  heróis  da  nacionalidade.  A sua história, a história dos fortes, fortins, baterias e trincheiras que se alinham num vasto mas ainda incontado número ao longo das duas serras beirãs, pode ser uma história obscura, de astúcia estratégica e de desgaste contínuo, com pouco para contar no veio narrativo principal da História do nosso país, mais destinado às linhagens régias, tratados de partilhas territoriais e façanhas de heroísmo ou de indesmentível devoção patriótica. Mas as histórias destas modestas e toscas fortalezas que se estendem pelos concelhos de Vila Velha de Ródão e de Proença-a-Nova, algumas desaparecidas por isso mesmo, são a parte da História que não se conta aos manuais, são quanto muito notas de rodapé, partes cinzentas e nas sombras, sem epopeias nem heroísmos pessoais para que a grande História as possa abraçar para serem contadas. Todavia, essas fortalezas, construídas ao longo das encostas mais íngremes da serra das Talhadas (que interseta perpendicularmente o Tejo no afloramento quartzítico das Portas de Ródão) e do seu prolongamento pela serra do Moradal, tiveram um papel defensivo preponderante, embora discreto, alguns  momentos importantes da história do país. Aconteceram em 1762, no contexto da Guerra dos Sete Anos e do complexo jogo de alianças em que Portugal se viu envolvido, e mais tarde, no início do século XIX, na Guerra das Laranjas, e na primeira invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão Bonaparte.

 

A Câmara de Proença-a-Nova reconheceu o importante património histórico que estes redutos defensivos representam e tem promovido nos últimos anos o seu estudo sistemático e valorização. Ainda recentemente, em agosto, ocorreu um novo programa de trabalhos do Campo Arqueológico de Proença-a-Nova, criado quatro anos, com escavações, sondagens e reconstruções de algumas das suas estruturas militares.

 

Uma invenção estratégica do conde de Lippe

“Alinha defensiva Talhadas-Moradal, um ‘muro’ elevado de 27 quilómetros de extensão entre o Zêzere e o Tejo, foi criada em 1762 no âmbito da Guerra dos Sete Anos (que ocorreu entre 1756 e 1763), em que Portugal entra na sua fase final, e deve-se à visão do marechal-general inglês conde de Lippe, que foi chamado para organizar o exército português e cuja estratégia de defesa era fechar a porta de Lisboa”, afirma Mário Monteiro, arqueólogo da Associação de Estudos do Alto Tejo (AEAT) e investigador do projeto da Linha Defensiva Talhadas-Moradal. O marquês de Pombal pressentia a proximidade do conflito contra Espanha e França e agiu preventivamente pedindo o apoio militar de Inglaterra. A velha aliança luso-britânica comprometia a posição de Portugal, mas também permitia uma ajuda militar, a que o governo inglês correspondeu enviando para o nosso país Wilhelm Schaumburg-Lippe, que seria de imediato designado como marechal-general dos exércitos e responsável pelo “governo das armas de todas as tropas de infantaria, cavalaria, dragões e artilharia, além de diretor geral de todas elas”.

 

“O conde de Lippe estava habituado a defender um pequeno reino (era o conde soberano de Schaumburg, um principado na Baixa Saxónia) protegendo-o dos poderosos da Europa, e o que ele trouxe para Portugal, também um pequeno reino, foi organizar um exército  ainda incipiente e seguir uma estratégia defensiva semelhante. Esta, consistia não em enfrentar abertamente os exércitos inimigos e invasores, mas em seguir uma estratégia de desgaste dessas tropas, procurando por todos os meios travar a sua progressão e ‘empatá-los’ no seu caminho para a capital do reino”, esclarece Mário Monteiro, notando que a barreira orográfica constituída pelas serras das Talhadas e do Moradal era um obstáculo natural que os invasores vindos de Espanha e entrando pelas beiras tinham de enfrentar. Mas esta cordilheira tinha pontos baixos e vulneráveis na sua estrutura natural, eram as portelas. Os inimigos do país, carregados com uma logística pesada, não podiam transpor as duas montanhas salientes, mas podiam progredir sem dificuldades especiais pelos vales que aqui e ali existiam entre as serranias e que eram um convite ao seu avanço. Eram pontos fracos, as portelas com as suas estradas, e foi sobre elas que incidiu a sua atenção. Se eram locais frágeis, e que naturalmente se deixavam transpor sem problemas, era necessário criar artificialmente essas dificuldades. E este foi o busílis da questão. De um lado e outro das portelas baixas, nas encostas íngremes dos montes contíguos, era necessário construir estruturas defensivas que, não podendo impedir, pudessem pelo menos atrasar o avanço dos exércitos hostis, permitindo que em Lisboa, a Coroa pudesse preparar com mais tempo a defesa do reino ou mesmo, como sucedeu em 1808, a sua retirada para o Brasil. E é neste foco que surge, de uma forma integrada a linha defensiva da região. Entre o Zêzere e o Tejo, todos os inimigos teriam que a atravessar, e à espera deles teriam fortes (nos pontos mais altos das encostas), fortins, baterias e trincheiras a meia vertente, estruturas construídas em pedras de xisto que se dispunham de forma conjugada. Transpondo essa muralha natural e o que a inteligência militar fizesse dela, os invasores chegariam a Abrantes, e daí em diante não seria fácil detê-los até chegarem às proximidades da capital. Lisboa e o reino tinham nas serranias beirãs uma longínqua proteção, mas nem por isso era menosprezável.

 

“Todavia, esta é apenas a primeira linha de um sistema defensivo muito mais complexo. Uma segunda e uma terceira linhas são traçadas em torno de Abrantes, de forma a gorar os intentos do invasor ou a permitir uma retirada em segurança. Temos assim uma segunda linha designada como Linha de Castelo Velho a Milriça, onde se encontram referenciadas seis baterias”, explica o arqueólogo da AEAT. O Conde de Lippe tinha criado o quartel-general em Abrantes, que era a porta para Lisboa ao longo do corredor que vinha da Beira Baixa, e Abrantes era a retaguarda possível de apoio a esse primeiro embate. Daqui nasceu apropriadamente a observação que se tornaria popular: “Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes!”

 

A forma de David enfrentar Golias

“Os fortes eram as estruturas muralhadas de retaguarda com uma forma retangular, algumas vezes com um fosso à sua volta, onde havia infantaria e artilharia, e que dispunham normalmente de canhões. Um pouco mais abaixo, a meia encosta, havia só a artilharia, cinco ou seis homens e algumas peças de fogo”, observa Mário Monteiro, referindo que nos episódios militares de 1762, com um exército incipiente e composto sobretudo por milícias, vieram dez canhões de castelos do interior para as baterias de Talhadas-Moradal, tendo os trabalhos arqueológicos realizados encontrado seis balas de canhão de 5,5 quilos, que se calcula tenham sido usadas nessa altura. Aproveitavam-se os cabeços e com os canhões e outras bocas de fogo, os soldados portugueses procuravam sobretudo, num certo tipo de guerrilha, criar perturbação entre os inimigos, desgastá-los ao máximo e ganhar tempo para que as tropas portuguesas mais longe tivessem oportunidade de se reunir e organizar para os embates mais decisivos. Foi assim nos concelhos de Nisa, Castelo Branco, Vila Velha de Ródão, Proença-a-Nova e Oleiros, e mesmo ao longo do vale do Zêzere, em muitas gargantas é possível ainda agora descortinar o que resta das velhas baterias e baluartes militares improvisados. Era a forma de David impor o terreno e preparar os seus argumentos para enfrentar o Golias francês… Em 1762, reinava D. José I em Portugal, a Coroa recusou assinar o pacto de família com as cortes espanholas e francesas, mantendo a sua lealdade com a Inglaterra. Os ingleses ainda vieram em nosso apoio, mas a força conjunta luso-britânica era manifestamente insuficiente para enfrentar o exército unido de 30 mil espanhóis e dez mil franceses, com 93 canhões à ilharga, e chefiado pelo marquês de Sarriá e mais tarde pelo conde de Aranda. Face à desproporção de recursos, o conde de Lippe entendeu que a melhor opção seria complicar as manobras dos invasores e aproveitar os obstáculos que o terreno lhes poderia naturalmente opor. Depois de tomarem Castelo Branco, os agressores pretendem avançar para Abrantes. E é neste passo que têm de enfrentar as serras das Talhadas e de Moradal, uma muralha considerável. Mas Lippe pretende torná-la inexpugnável, fortificando-a com estruturas leves mas que serviam ao seu objetivo de desmoralizar os adversários. Usou também, segundo Mário Monteiro “táticas de resistência não convencional, utilizadas secularmente por Portugal, um pequeno país constantemente obrigado a resistir a um maior”. Mesmo assim, houve confrontos militares sangrentos entre as guarnições militares lusas e as forças intrusas, como ainda hoje é possível verificar através de testemunhos orais populares e alguns registados em relação a confrontos em Alvito e Catraia Cimeira, onde “o sangue chegava aos machinhos dos cavalos”.

 

Mário Monteiro adianta que mais tarde, em 1801, quando ocorreu a Guerra das Laranjas, que para alguns historiadores devia ser considerada como a primeira invasão francesa, “a linha defensiva Talhadas-Moradal é reestruturada e equipada com novas estruturas e construída uma estrada militar para facilitar as comunicações”. Porém, esclarece, “a força invasora entra pela fronteira do Alentejo, não tendo as milícias da Beira Baixa participado no conflito”.

 

Em 1806, Napoleão impôs aos britânicos o Bloqueio Continental, que obrigava ao fecho dos portos ao comércio com Inglaterra. Portugal não quis integrar-se nesse boicote, tinha uma aliança centenária com os ingleses, e quis honrá-la. E é nesta sequência que os franceses invadem o reino lusitano. Em relação à primeira invasão, o arqueólogo confirma que “o rei disse para recebermos os franceses como amigos”, mas as serras, a inclemente invernia e a oposição dos populares organizados em milícias, muitas vezes com o patrocínio moral do clero das Beiras, tiveram um efeito devastador sobre o exército invasor. Todos os fatores se encarregaram de o combater, mas deixemo-nos conduzir antes pelas Memórias, de 1817, do general francês Thiébaut. “A primeira divisão entrou na Sobreira Formosa (hoje concelho de Proença-a-Nova) com todos os seus homens em grande sofrimento e muitos deles descalços. As ordens eram severas, mas as dificuldades eram tantas que os soldados penetraram nas casas e num instante a vila foi saqueada. Depois de esvaziar a casa passavam à seguinte”, escreveu Thiébaut, para depois acrescentar: “A chuva caía copiosamente e a obscuridade era tanta que ninguém via o caminho, que era muito estreito, tortuoso e difícil. Muitos soldados caíam do alto das rochas e de todos os lugares se ouviam gritos prolongados, lúgubres gemidos que se misturavam com o barulho da chuva. É impossível conceber algo mais sinistro que a noite de Sobreira”. Seguindo ainda a crónica do general francês, percebe-se que a coluna chega à vila apenas com um sexto dos homens, mortos de fadiga, a comer bolotas e castanhas cruas e mel, “mas este causava diarreia à qual muitos sucumbiam”. Poucos chegariam a Abrantes, e sabe-se lá em que condições…

Manuel Fernandes Vicente
ABARCA, n.º 396, 1 de outubro de 2016
« Junho 2017 »
D S T Q Q S S
        1 2 3
4 5 6 7 8 9 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30  
             
SIGA AS NOSSAS PEGADAS
 PESQUISA