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afonsocautela Apresentação do livro "Lama e Alvorada"

"Editar a poesia reunida de Afonso Cautela é trazer à superfície um tesouro enterrado até agora sob camadas profundas de sedimentos ou naufragado nalgum mar abissal."

A apresentação decorre dia 26 de maio de 2017 na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, em Lisboa, pelas 18:00h.


Como refiro na introdução ao livro Campa Rasa,  que editei em janeiro de 2011, conheci o nome de Afonso Cautela por volta de 1960, teria eu talvez 15 anos, quando adquiri numa livraria o seu livro Espaço Mortal, sem que ninguém mo tivesse recomendado ou sem que tivesse lido na imprensa, inclusive literária, qualquer referência ao livro ou ao autor. Guiado por algum instinto ou casualidade, o livro deixou-me uma marca que não se apagaria ao longo da década em que, após ter também comprado o segundo livro do autor, O Nariz, de 1961, não voltei a deparar com o seu nome. Na mesma introdução, situo as circunstância em que, no início dos anos 1970, volto a ter contacto com ele, o que viria a passar pelo conhecimento pessoal e por uma colaboração em domínios formalmente exteriores à poesia literária.

Em 1996 participei na fundação de uma série intitulada DiVersos - Poesia e Tradução. Alguns anos antes, o Afonso tinha-me confiado um livro de poesia datilografado a que pusera o título Repórter de Rua, manifestando (ele, ou eu, não recordo já) um vago interesse em que eu pudesse talvez editá-lo, dados alguns parcos relacionamentos que tinha no mundo editorial. Os poemas do livro, mas não o livro propriamente, que nunca chegou a ver a luz do dia, estão agora integrados neste I volume de Lama e Alvorada. Lembrando-me deles, solicitei ao Afonso alguma colaboração para a DiVersos. Depois, talvez por 2007-2008, em circunstâncias que não recordo bem, tomei contacto com os poemas que viriam a constituir o livro Campa Rasa, alguns dos quais começaram por sair também na DiVersos.

Dessa publicação inicial nasceu o meu convite a fazer com eles um livro. E porque o reduzido número de páginas não daria para um livro com lombada (sem que esse exíguo número possa de modo algum retirar-lhe a qualidade de «livro»), recorri à «edição» eletrónica da sua poesia, que Afonso Cautela, no início dos anos 2000, sem alarde, tinha colocado em linha.

Eu sabia dessa «edição» eletrónica, sabia do seu caráter obscuro, de poucos conhecida, mas não tinha então olhado para ela como algo a publicar, talvez sobretudo devido à minha modesta envergadura de microeditor. Comecei a vê-la de outro ângulo ao selecionar alguns poemas esparsos que, sob o título «Outros Poemas», vieram a constituir a segunda parte de Campa Rasa.

O processo de seleção fez-me ganhar maior familiaridade com a vastidão e alcance da poesia de Afonso Cautela. Apesar dos dois livros de 1960 e 1961, apesar de uns poucos poemas dispersos em jornais e revistas, apesar da obscura «edição» eletrónica, havia que considerar inédita a quase totalidade dessa obra poética. Logo em 2008, quando preparava ainda a edição de Campa Rasa, que só surgiria afinal cerca de dois anos depois, concebi o projeto de uma futura edição dessa poesia reunida. Para a qual, no entanto, não dispunha, naquele momento, de perspetivas materiais de concretização.

Não sendo crítico nem historiador de literatura, falta-me «autoridade» para o afirmar; mas, e colocando as reticências a que isso obriga, apenas com base no que li de não pouca poesia, atrevo-me a afirmar que Espaço Mortal é um dos mais belos livros de poesia portuguesa publicados na segunda metade do século XX.

Mergulhar na tarefa de reunir a poesia inédita do autor fez-me ampliar essa convicção ao conjunto da poesia de Afonso Cautela. Ela ia revelando para mim um poeta da maior dimensão da época das décadas entre 1960 e 1970, âmbito cronológico da sua quase totalidade.

É minha convicção que esta poesia deveria figurar entre o que de melhor se escreveu na poesia portuguesa nesse período, em especial na década 1955-65. Que ela tenha até hoje permanecido inédita (ou, na pequena parte publicada, obscura; o que é maior injustiça ainda), embora haja por vezes casos assim, é revelador de como circunstâncias episódicas e subalternas, ajudadas por uma desatenção não rara do «mundo literário» ao que excede o consenso do momento, podem impedir ou deixar na sombra um merecido reconhecimento e a irradiação que possibilitaria.

Embora por alguns traços a poesia neste volume reunida (e a que será integrada no II volume de Lama e Alvorada) partilhe certas caraterísticas das temáticas e sensibilidade de alguma da poesia portuguesa do terceiro quartel do século XX – atenção às realidades do mundo e da história contemporânea, sentido agudo da liberdade da poesia, destaque tanto às dimensões íntimas, pessoais e subjetivas como em geral humanas que a aproxima das filosofias da existência, a dimensão onírica traduzida na inventividade da linguagem, a dimensão ética do horror e do combate à abjeção –, estou em crer que será difícil encontrar alguma outra nesse período com idêntica vastidão temática, dimensão humana e cósmica, multiplicidade de perspetivas e de visões.


Introdução do editor

José Carlos Costa Marques


CARTAZ

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